A governança corporativa, em sua essência, é inegociável. Assim como não existe "pecadinho ou pecadão", não há governança "pequena ou grande": ela é uma falha quando ausente. Para a longevidade e prosperidade de qualquer negócio, seja ele familiar ou de capital aberto, a implementação de práticas de governança é fundamental. Este alinhamento estratégico é crucial para a sucessão familiar e a continuidade dos negócios.
Governança: Pilar de Integridade e Conformidade
A governança corporativa é algo pétreo e perene dentro das empresas, embora adaptada para cada modelo de negócio. Ela exige obediência às leis, normas e regulações, além das boas práticas de mercado. Estar em conformidade significa emitir nota fiscal, pagar impostos, registrar funcionários corretamente, entre outras ações básicas. É a base para uma relação saudável com o mercado, atraindo empresas sérias, colaboradores engajados e investidores confiantes.
Qualquer tamanho de empresa, em qualquer momento, pode e deve ter governança. Uma startup com cinco colegas, por exemplo, pode ter um bom conjunto de contratos para clientes e fornecedores, e padrões básicos de operação. Sem isso, a empresa não se sustenta. Para empresas altamente reguladas ou no mercado aberto, os conselhos de administração e fiscais desempenham papéis cruciais, com obrigações legais e regulatórias, como as exigidas pela CVM para instituições financeiras.
Conselhos: Mais que Aconselhamento, Complemento de Competências
Um conselho de administração não existe apenas para aconselhar, mas para complementar competências e entendimentos, ajudando a alta direção a tomar boas decisões e escolher bons rumos. Um conselho sério exige transparência recíproca: ele só funciona se tiver acesso a todas as informações relevantes, incluindo centenas de páginas de documentos, demonstrativos financeiros e relatórios de inteligência.
O trabalho de um conselheiro é intenso e contínuo, com um trabalho prévio muito grande junto aos comitês de assessoramento. Não é apenas uma reunião mensal, mas um processo de preparação e alinhamento para que as ideias convirjam, mesmo diante de discordâncias. Um conselho diverso, rico em informações e provocante, é um ponto de crescimento para a empresa, não um mero fórum de elogios. Ele gera debate para prover as melhores recomendações e caminhos, afastando o achismo e buscando decisões sólidas.
Sucessão Familiar: Um Plano de Continuidade de Negócios
A sucessão familiar é, em essência, um plano de continuidade de negócios. Nada vive eternamente, e todas as empresas, mesmo as não familiares, precisam de planos de contingência. Não se trata de prever algo negativo, mas de garantir que a empresa continue entregando valor aos clientes, à sociedade e aos colaboradores na ausência de uma ou mais pessoas, ou em face de novas condições, como uma pandemia, uma nova tecnologia ou um acidente.
Para empresas familiares, a sucessão deve ser planejada com antecedência, pois a afinidade e os laços familiares podem dificultar a adoção de boas práticas corporativas. É necessário preparar e formar sucessores dentro de casa, com programas organizados, buscando formações em universidades e consultorias especializadas. Exemplos como o Grupo Votorantim e o Grupo Silvio Santos mostram que existem modelos diferentes de sucessão, onde os familiares precisam estudar e conquistar suas posições, ou onde a vocação para conselheiro é cultivada.
Delicadeza e Profissionalismo na Transição
A condução de processos de governança baseados em sucessão familiar exige muita delicadeza. É preciso evitar conflitos, problemas de ego e resolver questões patrimoniais, que por vezes demandam a criação de holdings ou outras estruturas jurídicas. Existem consultorias especializadas que assessoram nesse processo, garantindo que a transição seja suave e que a empresa não se torne refém de indivíduos, mas que o negócio seja um refém do indivíduo ou vice-versa.
É importante que o CEO seja dispensável, não no sentido de ser substituível a qualquer momento, mas de que a empresa tenha a capacidade de continuar operando com excelência independentemente de uma pessoa. A sucessão, quando não antecipada, pode se tornar um problema. Portanto, planejar a continuidade e a formação de novos executivos, sejam eles familiares ou não, é uma boa prática que garante a perenidade e o sucesso a longo prazo.